de volta pro futuro

abro os olhos e vejo um armário daquela cor de madeira tão comum nos anos 80. é velho... mas eu conheço esse armário. consigo sentir um cheiro e ele é tão peculiar, tão característico.. do que mesmo? o cobertor está quentinho e me vejo sentando. meu coração congela quando vejo onde estou. a mesma cama, o mesmo armário. estou sonhando? é um pesadelo? 

fico na ponta dos pés e abro o armário. pá! figurinhas. as nossas fotos. só que eu não estou nelas - pelo menos não em todas. fui cortada das demais. mas elas estão ali. levanto a figurinha do Senna e encontro meu nome ali. que diabos está acontecendo aqui?

procuro pelo meu celular, óbvio. que dia é hoje? em que ano estamos? porque obviamente isso é um sonho (pesadelo? não. sonho.) e eu voltei no tempo. mas ali tá escrito 10 de janeiro de 2021. putaqueopariu. onde ele está e como é que eu vim parar aqui? então escuto o chuveiro ligado e fico na dúvida se eu entro ou não. eu sei onde é o banheiro, mesmo depois de todos esses anos, mas já não me lembro de como ele é. abro a porta? espero? espero. vou zapear no celular, é isso. procurar alguma coisa no celular, óbvio! como foi que não pensei nisso antes? pego meu celular e vejo a foto de porto de galinhas como plano de fundo. abro meu aplicativo de mensagens, mas então escuto o chuveiro desligar e a maçã aparecer na tela do celular. fim da bateria. típico. clichê. 

meu coração começa a bater muito rápido quando sinto o cheiro vir do banheiro e ouço a trilha sonora que vem ao fundo. não é possível. não ouço passos, mas sei que ele está vindo para cá e quando ele aparece na porta com um shorts de moletom e a toalha branca coçando a cabeça penso que eu devo ter lido alguma coisa errada, pois ali está ele do jeitinho que eu lembro - ou que deixei. 

- você tá bem? 

sinto cada batida desse coração e quero muito perguntar o que está acontecendo, mas simplesmente não consigo falar. eu congelei e ele parece entender. fica na porta e não se aproxima, só que me olha daquele jeito e aquele jeito é tão especial. como eu pude esquecer como é que se olha pra alguém por quem somos completamente apaixonados? 

_ eu também não sei o que aconteceu. só pra você saber.. você me ligou ontem de noite, chorando bastante. no começo eu achei que era uma pegadinha, que não era você, mas então você me chamou pelo nome e não pelo apelido, daquele jeito que só você chama quando está brava e eu soube que era você mesma. - enquanto ele fala, tento acompanhar, só que não sinto que estou conseguindo fazer qualquer coisa além de olhar pra ele. é ele! eu estou aqui. - acho que você estava bêbada, mas não sei como isso é possível porque você não bebe. ou não bebia. eu não sei... já faz o que? 10 anos? mas aquela ontem não era você. sentada na calçada, sozinha com aquele celular na mão. você disse que precisava de mim e eu vim. você chegou, ficou abraçada no meu pescoço, eu te coloquei nessa cama e você dormiu. meu quarto não é mais esse, obviamente, mudei para o do meu irmão quando ele casou. esse aqui ficou igual. acho que deu pra perceber. 

_ como foi que eu consegui falar com você? essa conta não fecha. seu número.. 
_ não é o mesmo. você falou com o meu irmão pelo insta. pediu meu telefone e ele deu. claro que ele deu. - ele senta do meu lado. - o que aconteceu? você pode me explicar o que aconteceu?
_ você não tá... noivo, algo assim? - eu sinto o cheiro. aquele cheiro. tenho vontade de tocá-lo pra ter certeza que isso está acontecendo, que isso é real. levanto a mão, mas logo coloco-a de volta ao lugar.
_ isso importa? - ele me pergunta, enquanto pega um cigarro. 





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